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26

Janeiro

Depois da “safra das safras”, o que esperar do vinho brasileiro em 2021?

Os vinhos brasileiros nunca tiveram tanto destaque como no ano passado. Foram os brancos e tintos de mesa (aqueles elaborados com uvas não viníferas), principalmente, e os vinhos finos brasileiros que elevaram o consumo da bebida.

Em 2020, o patamar de consumo subiu para 2,78 litros per capita (para os maiores de 18 anos), nos cálculos da consultoria Ideal. Em 2019, esse consumo era de 2,13 litros para os maiores de 18 anos.

A qualidade da safra – 2020 foi batizada como “a safra das safras” – e os preços dos vinhos nacionais estão na base deste crescimento, como conta Deunir Argenta, presidente da Uvibra, a União Brasileira de Vitivinicultura, em entrevista ao NeoFeed.

“Sempre tivemos dificuldade de convencer o brasileiro de degustar os nossos vinhos. Mas quem tomou o vinho brasileiro no ano passado não teve como não gostar”, afirma Deunir. “Estamos em um momento em que a nossa indústria tem equipamento de ponta, não tem vinho ruim.”

O vinho fino brasileiro dobrou de volume no ano passado, em comparação com 2019. E os vinhos de mesa tiveram um crescimento de 32% no mesmo período, segundo a Ideal. As importações, para comparar, cresceram 29%, também em volume.

Com estoques reduzidos e ainda enfrentando falta de matéria-prima, como garrafas e rótulos, Deunir está otimista com a safra de 2021, que está começando a ser colhida.

A qualidade, novamente, promete e o brasileiro agora tem menos preconceito com o vinho nacional. Neste ano, a Uvibra passa a contar, ainda, com a verba do Fundovitis, para promover a bebida.


Deunir Argenta, presidente da Uvibra
Confira os principais trechos da entrevista:

Quais as perspectivas para este ano?
O ano começa com uma safra de qualidade. Começamos a colher as uvas para o espumante e a qualidade está muito boa. A pinot noir e a chardonnay, que são as uvas base de espumante, têm muita qualidade. Deve ser uma safra de tamanho normal, ao redor dos 700 mil toneladas de uva. No ano passado, com a chuva depois da floração e a seca a seguir, foi uma safra menor, ao redor de 500 mil toneladas. Mas só se pode falar mesmo da qualidade da safra quando a colheita termina.

Quais as perspectivas de venda deste ano?
No ano passado, tivemos um movimento grande até novembro. Ainda não temos todos os dados de dezembro, mas acredito que seja superior a dezembro do ano anterior. Os espumantes recuperaram o fôlego no fim do ano. Mas esses números são dos vinhos que saíram das vinícolas. Agora, em janeiro e fevereiro, vamos perceber o que foi comprado. Uma coisa é o vinho sair da vinícola, outra é o consumidor comprar. E agora tem o reajuste das tabelas.

Vão subir os preços?
Vamos ter de repassar. A uva vai ter um ágio nesta safra. Tem a lei da oferta e da procura, e as vinícolas ficaram com estoques baixos. Os preços já estão mais altos do que a tabela do governo [o governo define sempre o preço mínimo]. Tem também todos os custos de matéria-prima, garrafas, rótulos, que estão mais altos. Mas acho que o reajuste não vai afastar o consumidor. A maioria das vinícolas não fez uma tabela agressiva. A maioria repassou 10%, 15% ao longo do ano passado. Agora o reajuste deve ser um pouco maior por causa dos insumos. O consumidor vai perceber o aumento, mas não será tão expressivo.

O consumidor continuará no vinho nacional?
O consumidor foi o grande ganho que tivemos no ano passado. Sempre tivemos dificuldade de convencer o brasileiro de degustar os nossos vinhos. Mas quem tomou o vinho brasileiro no ano passado não teve como não gostar. Estamos em um momento em que a nossa indústria tem equipamento de ponta, não tem vinho ruim. O ano passado foi a melhor safra da história, a “safra das safras”. O consumidor quis provar e percebeu que o vinho brasileiro é bom.

“O ano passado foi a melhor safra da história, a safra das safras. O consumidor quis provar e percebeu que o vinho brasileiro é bom”

Pode-se afirmar que acabou ou ao menos diminuiu o preconceito com o vinho brasileiro?
Às cegas, o nosso vinho cai no gosto do brasileiro. São frutados, não muito encorpados. O brasileiro gosta do vinho brasileiro. Não digo que vai manter o crescimento do ano passado, mas é fato que conquistamos uma boa parte do consumidor. Com a uva tendo qualidade e o preço justo, devemos ter um ganho de mercado. Esse ano também terá um investimento em marketing. A verba do Fundovitis foi liberada no fim do ano. São R$ 12 milhões e vamos investir na promoção do nosso vinho.

Já está definido o destino desta verba, que agora o governo repassa para a Uvibra?
Esses recursos são para toda a cadeia produtiva. Vamos fazer programa de treinamento de boa prática na lavoura, de vinhedo. Não adianta estimular o consumo e esquecer de quem faz a matéria-prima. Existe um grupo de trabalho, que engloba todo o setor, e que discute a divisão desses recursos. E terá uma campanha institucional. Será modesta e bem-feita.

Qual o balanço de 2020?
Foi um ano totalmente atípico. Há um ano, no começo de 2020, estávamos com um estoque muito elevado, pensando em estratégias de como desovar o vinho brasileiro. Em março, nos reunimos para pensar como iríamos sobreviver, foram momentos complicados. Mas, em abril, começou uma procura pelo vinho, que continuou em maio. Daí em diante, foi só surpresa positiva. Foi um consumo totalmente fora da linha, ao contrário dos espumantes, que teve queda, já que não tiveram tantas festas e formaturas como antes.

Na sua opinião, o que fez o consumidor procurar o vinho na quarentena em vez de outras bebidas?
Acredito que foi uma junção do preço, do consumo e do desespero, das pessoas em casa, com medo da Covid. A pandemia foi o pivô. O dólar, que chegou a valores mais expressivos, deixou o vinho importado com um custo maior. Teve a facilidade de o consumidor ir no armazém mais próximo e comprar o seu vinho. O e-commerce das vinícolas nacionais foi também uma ferramenta muito usada. Foi um diferencial que os produtores souberam usar.

No começo de 2020, a indústria reclamava de estoques altos. Como ficou o estoque no fim do ano?
No ano passado, estávamos com mais de duas safras em estoque. Estávamos todos preocupados, porque estávamos mantendo a mesma venda. Estávamos produzindo mais do que vendendo. Agora, os estoques caíram muito. Devemos estar com uma safra de estoque, o que é razoável. As vinícolas maiores estão mais estocadas do que as pequenas e os vinhos de mesa estão com estoques bem baixos. O vinho comum realmente vendeu muito. O suco de uva deu uma estacionada, ele era muito consumido nas escolas, que ficaram fechadas. Como os espumantes tiveram uma venda menor, acredito que muitas vinícolas vão utilizar o vinho-base, que já está estocado, para os espumantes e aproveitar a safra deste ano para elaborar brancos e tintos.

“Estávamos produzindo mais do que vendendo. Agora, os estoques caíram muito. Devemos estar com uma safra de estoque, o que é razoável”

Mesmo positivo, o aumento do consumo mostrou um gargalo da indústria nacional.
Os problemas de falta de embalagem, de garrafas, de caixas e de rotulagem começaram em outubro. Foi uma corrente. E deixamos de vender uma quantidade maior de vinho. Não se tem um número exato de quanto deixamos de vender. É um dado particular de cada vinícola. Tem vinícola de grande porte que está mantendo a tabela do ano passado até conseguirem honrar as entregas que não conseguiram atender em 2020.

E o plano de uma nova fábrica de garrafas?
Em outubro, em uma reunião com o governador [do Rio Grande do Sul] já falávamos da falta de insumos e de garrafas. O secretário de Agricultura disse que seria interessante buscar parceiros. Apareceram três grupos de investidores. Sei que um grupo está mais interessado, já conversou com as vinícolas para entender a demanda e está olhando locais para instalar a fábrica.

Quem é esse grupo?
Não posso dizer, é uma coisa sigilosa. Na verdade, são dois grupos interessados. Se tiver esta fábrica, seria o ideal. Se tivermos um ano igual ao que passou, vai ter falta de vasilhame. Muitas vinícolas se socorreram no Chile e na Argentina no ano passado. Ainda não sei como será neste ano.

No ano passado, antes do aumento do consumo, a Uvibra liderou um movimento para proteger o vinho nacional frente ao importado e depois voltou atrás. Como ficou essa questão?
Foi um entendimento pontual, mas não existe mais esse pensamento. Teve quem ficou descontente, mas foi passageiro. O mercado percebeu que não tem espaço para isso.

E as discussões do vinho no acordo de livre comércio com a Europa?
Essas negociações estão paradas. É preciso esperar para ver como será conduzida essas questões pós-pandemia. Acho que muita coisa vai mudar. Essas negociações talvez tenham outros rumos, mas ainda é prematuro falar. A única coisa que não mudou foi a carga tributária.

Com o fechamento das fronteiras pela pandemia, também ficou claro o tamanho do descaminho com o vinho.
Sim, os números do Paraguai, que reduziu suas importações, realmente mostram isso. E aumentaram as apreensões. Esse descaminho compete diretamente com os importadores. Nossas fronteiras são muito grandes.

Além de atuar na Uvibra, você é dono da Luiz Argenta, uma vinícola boutique. Como foram as vendas no seu projeto familiar?
2020 foi o nosso melhor ano. Tivemos um crescimento muito bom. Antecipamos em um ano o resultado no nosso plano estratégico de quatro anos, que terminaria em 2021. Nossa vinícola é pequena, não tem grandes volumes e vários de nossos produtos se esgotaram. Os vinhos jovens terminaram em novembro. Como tínhamos reconvertido vinhedos, estávamos com uma produção menor e só trabalhamos com uvas próprias.


Fonte: Neofeed

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